Como eu desencarnei pela fome
Eu nasci num lar de fome, num país de fome.
Como foi duro chorar por um punhado de leite que nunca existiu!
Cresci em busca das sobras e dos restos de algum alimento ou animal disponível.
Sabe, podia ser qualquer um
que me fizesse a dor da fome no meu estômago parasse como uma doença crônica.
Peguei rubéola, contraí o vírus da AIDS, tive hepatite, tive fome.
Os navios traziam comida, mas ela nunca chegava à nossa aldeia.
Minhas roupas eram trapos velhos esquecidos por alguém.
Diarréia, vômitos constantes e o longo e tenebroso calafrio dos indigentes,
aqueles que nasceram para ser nada...
Meu peito era vazio de esperança, mas meu coração guardou um restinho de amor.
Conseguia olhar em volta meus irmãos e irmãs, meus vizinhos, minha vila;
e ao longe eu via a miséria em todos os lugares.
À noite eu via a promessa de gente feliz,
gente que vinha à noite pôr a mão no estômago da gente e tirar a dor,
a cólera, a pressão da cabeça, as tonturas.
Eles eram felizes (espíritos de luz),
mas eu tinha fome. A fome, moca ou moco, dá desespero, tira da gente o sentimento mais nobre que é ajudar ao próximo. Você muda, vira bicho, mas seu coração vira pedra.
A gente perde a razão
Aos sete anos a cólera me pegou, a guerra já estava bem longe, pois os meus haviam fugido
para o norte
Lama, dor, uma dor que me tirava a vontade de comer.
Não entendia como a gente pode nascer para sofrer tanto.
Minha mãe magrinha passava a mão na minha cabeça que ficou grande, pois meu corpo não crescia de tanta fraqueza, desfaleci.
Só acordei agora e vivo por entre os meus em busca de trazer a emoção da caridade.
Eu sinto e espero que você nunca possa estar no lugar que tive ou sofrer o que eu sofri,
O mundo se divide a cada dia e choro pela indiferença, pelo egoísmo, pela falta de esperança, pela miséria humana.
Mas, aprendi que Jesus é o nosso salvador e sei que ele também teve dores talvez muito maiores que as minhas. Porém, minhas mãos não podem tocá-lo. Disseram-me: ele é perfeito, vive lá no alto, bem no lugar daqueles que vivem no bem maior.
Ainda sou uma criança, mas ainda choro ao ver as outras buscando um resto de semente para preservar um minuto a mais de vida.
Glória a Deus e a Jesus por ter me dado, moço e moça, a chance de vir no seu país, o Brasil e escrever pra vocês do quanto é triste não ter esperança; e o pior de todas as atrocidades humanas, a dor da morte com fome e do massacre da miséria.
Umbembe, um espírito de 7 anos
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